Início Novidades

O Beco da Lama, reduto boêmio e cultural de Natal


O Beco da Lama é uma área do centro de Natal onde estão localizados os bares e os sebos mais antigos da cidade, local conhecido por ser o mais autêntico reduto da boemia natalense desde os tempos em que o bonde ainda circulava pelas ruas da cidade.

O beco e adjacências se firmaram como marco da resistência cultural e artística do Centro da Cidade, com direito até a uma associação, a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (SAMBA), que tem a finalidade de divulgar e preservar as origens da região, onde ficam muitos bares, botecos e restaurantes simples, além de sebos e lojas que ainda vendem e trocam os antigos discos de vinil.

Na região do Beco da Lama, a entidade realiza o Festival Gastronômico Pratodomundo, o Festival MPBeco e o Carnabeco.

As ruas Vigario Bartolomeu, Coronel Cascudo e Gonçalves Ledo, na lateral do Antigo Cinema Nordeste, são as principais via do Beco, onde se concentram os botecos e sebos.

Durante a semana toda, a região tem seus frequentadores fiéis e o público que vai atrás de livros, revistas e vinis que são verdadeiras relíquias.

Nas sextas e sábados, o Beco recebe seus frequentadores mais ilustres, que são artistas, jornalistas, profissionais liberais ligados a arte e a cultura da cidade e mesmo curiosos. O pessoal vai para beber e comer comida de boteco, jogar conversa fora e falar mau de políticos.

Mas o Beco da Lama não seria o mesmo sem seus personagens típicos, folclóricos, como bêbados, malucos belezas, travestis e transformistas.

Personagem do Beco

Um dos personagens do Beco, que há 25 anos freqüenta este espaço de resistência da boemia no centro de Natal, é muito especial para os frequentadores da região, principalmente por ser uma pessoa alegre e prestativa.

Quem apresenta esta figura impar do Beco da Lama é o cirurgião-dentista, Eimar Lopes, um poeta e cordelista nas horas de folga, um bom contador de piada, que veio lá das bandas de Marcelino Vieira, já na tromba do elefante do mapa potiguar.

“Gardênia é um sujeito que não incomoda ninguém, que chega aqui pede um dinheiro e desaparece, não sei pra onde, mas depois volta sempre alegre, cantando e dançando, já sendo um ícone aqui do Beco”, relata o cirurgião-dentista.

A pessoa de “Gardênia” é tão querida entre os freqüentadores do Beco da Lama que até foi criado em sua homenagem o “Gardênia Day”, um evento que há dois anos acontece no local, no mês de novembro, onde desfilam as figuras que dão personalidade a região.

Nascido Edmilson Ferreira, 43 anos, Gardênia foi o codinome que ele adotou por achar bonito, depois que viu o nome escrito num salão de beleza da região central de Natal, também conhecida como Cidade Alta.

Segundo ele, o seu Gardênia não tem nada haver com a famosa música do porto-riquenho Rafael Hernandez, que compôs o bolero Perfume de Gardênia.

Para quem não sabe, a Gardênia é uma planta ornamental da família das rubiáceas, também conhecida por jasmim-do-cabo (mesmo não sendo da família dos jasmins). A sua origem é chinesa. O arbusto pode atingir até 2 metros de altura. Suas flores são brancas, com cinco pétalas.

No início da primavera, o arbusto começa a cobrir-se de belas e perfumadas flores brancas, cujo perfume doce e intenso inspirou o compositor Hernandez.

Há 25 anos freqüentando o Beco da Lama, Gardênia conta que, antes de levar esta vida dupla, foi cozinheiro do restaurante Mama Itália, na praia dos Artistas.

Quase sempre no “grau”, resultado de muitas cachaças com caju, sua bebida preferida, Gardênia não gosta muito de falar de sua vida pessoal, cortando  conversar. "é sigilos", diz o ex-cozinheiro no plural.

Se a vida pessoal fica preservada, o nosso personagem do Beco gosta de contar que no próximo ano vai freqüentar um cursinho pré-vestibular para realizar seu sonho de ser advogado. “Vou fazer direito na UNP (Universidade Potiguar), a deputada Fátima Bezerra vai pagar”, conta orgulhoso este petista de coração, que elogia Lula.

Provocado para fazer uma análise da política local, afirma que não gosta de alguns políticos locais, como o senador do DEM, José Agripino, lembrando que era ele quem governava o Estado quando o Bandern (banco estadual) foi fechado pelo governo Collor, em 1991.

Por outro lado, elogia o senador Garibaldi Alves (PMDB) e diz que a atual prefeita de Natal, Micarla de Souza (PV), é uma “negação”.

Quanto ao curso de Direito, Gardênia cita os artigos 112, 121 e 124, sem entrar em detalhes, e diz que vai ser um criminalista.

Mexendo com os dedos na altura do ouvido, muitas vezes Gardênia prefere se comunicar com os amigos do Beco por meios de sinais, misturando sons próprios que poucos entendem. A não ser os “especialistas” em Gardânia, como o doutor Eimar, que traduz os gestos e os murmúrios desse personagem das ruelas do Beco da Lama.

Dançando forró, cantando Zé Di Camargo e Luciano e recitando poesias, Gardênia faz sua vida no Beco ter seus momentos alegres.

Em tempo de Natal, Gardênia arriscou até em pedir um presente aos amigos do Beco da Lama: “Eu quero um perfume do Boticário, o Free.”

Sabendo do pedido, o doutor Eimar disse a Gardênia que o presente de Natal já estava acertado, que no dia 24 voltaria ao Beco para dar o perfume.

Feliz da vida, Gardênia deu um abraço no doutor e saiu para comprar cigarro para um amigo do Beco. “Ele uma vez saiu com R$ 50,00 para comprar cigarro para um freqüentador do Beco e depois de quase 2 horas ele retornou com a carteira e o troco certinho”, conta o cirurgião-dentista, lembrando que sua presteza foi tanto que chegou a ir na Ribeira (bairro próximo do Beco) para achar a encomenda.

Gardênia é assim, um sujeito simples, prestativo, honesto e que leva sua vida sem incomodar ninguém. Boa praça, ela tem a admiração dos freqüentadores do Beco. “Quando vai sair a minha foto no jornal”, pergunta Gardênia, feliz da vida, após fazer pose para a câmera.

Diante da resposta que a reportagem sairia num site e não em jornal, Gardênia agradeceu e pediu para o repórter imprimir o texto com as fotos para ele ver.

Assim é este personagem autêntico do Beco da Lama, o último reduto boêmio e cultural de Natal que resiste aos tempos modernos, mas que agora, graças à internet, sai do gueto e se torna uma personalidade do mundo.

O cirurgião-dentista Eima Lopes, que tem um irmão médico, está tentando convecer Gardênia a fazer cirurgia de varizes, temendo que lhe possa acontecer um problema circulatório. Mas por enquanto, ainda não conseguiu levá-la até o consultório para um exame.

Segundo Lopes, Gardênia mora no centro e vive com a ajuda dos amigos do Beco. "Ela ou ele, não importa, é uma pessoa boa, não incomada ninguém, por isso, todo mundo ajuda", explica o dentista.


BOTECOS DO BECO

No Festival Gastrômico do Beco da Lama 2009, realizado em novembro passado, os grandes vencedores foram o Bamboa Restaurante, com o prato Carne-de-sol Norte-rio-grandense, e o
Restaurante Seridó, com Linguiça do Sertão, que dividiram o primeiro lugar.

O prato Cupim ao Beco, do Bar de Nazeré, ficou com o segundo lugar, enquanto o Restaurante Cidade dos Camarões tirou o terceiro lugar com prato Fava à Ceiça.

Além desses restaurantes citados, participaram do Festival o Whiskynão Bar e Restaurante (prato Cordeiro ao Queijo e Nata), Bar do Pedrinho (Bode Cabôco), Bardallo´s Comida & Arte (Paçoca com Banana) e Cozinha Caseira Bar e Restaurante (Cunhão do Beco).


Fotos



PUBLICIDADE







Natalonline - Todos os direitos reservados.